A biografia genial de um cínico boçal
Mais do que a biografia de um tenista, Open é a biografia de um cínico. Ele não odeia apenas o tênis. Odeia a própria vida. Pior, odeia a si mesmo. Eu aventaria um caso de depressão crônica. Não o acompanhei ao longo de sua carreira, sequer sou fã de tênis, muitos jogadores aparentemente famosos me passaram batido ao longo do livro. Li pela obra primorosa que é enquanto biografia, que foi o chamariz para a leitura.
Se no início o leitor sente pena de Agassi por sua infância, por ter sido obrigado várias horas por dia a praticar um esporte de que não gostava, com o passar do tempo a simpatia se esvai. O menino rebelde cresce e o que fica é a imagem de um homem triste, perturbado e… boçal. Um homem que descreve adversários e a ex-mulher, Brooke Shields, de forma derrogatória, com desprezo e ironia desconcertante.
Agassi é movido por raiva e ressentimento. O cinismo pode até ser um bom motor para chegar à verdade, mas não é e nem deve ser o único. O atleta parece que se alimenta desse cinismo. Qualquer pessoa que não faz mais ou nunca fez parte de seu núcleo principal (o treinador, o técnico, a mulher Steffi Graf, dois ou três amigos), ele faz questão de espezinhar.

Ao mesmo tempo, se coloca moralmente superior. Ele é especial por seus atos caridosos. Ele atingiu o nirvana ao lado de Mandela. Ele dá boas gorjetas. Ele passa a jogar e ganhar por “suas crianças”, as da escola que fundou. Agassi acha que é ali, e apenas ali, que precisa ser uma Pessoa Boa.
Daí mergulha novamente em sua persona infame, confessando ter usado metanfetamina em 1997 – até aí, tudo mais que bem. O problema foi ter sido pego no dopping e, para escapar da punição, ter mentido para o órgão regulador culpando seu assistente. Ele alegou que tinha tomado a droga acidentalmente num refrigerante de seu funcionário.
Essa postura questionável vem de encontro com a decisão do ghostwriter de não assinar a biografia. Eu não assinaria, por mais que o autor insistisse. É a vida dele, ninguém tem nada com aquilo. O livro foi aprovado, ótimo, é todo do autor. Seria muito fácil aceitar ter o nome na capa. Envaidece, dá projeção. Mas, nesse caso, mesmo sabendo que escrevia uma autobiografia sensacional, o escritor não se deixou seduzir pelo autor, mostrando experiência e sabedoria.
Separando criador de criatura, a biografia foi unanimemente elogiada pela crítica literária por sua escrita, e não pela história do atleta em si. O New York Times Book Review escreveu que não se trata apenas de uma autobiografia esportiva de primeira qualidade, mas de um romance de formação genuíno, divertido e cheio de alma.
O livro dos mais citados quando se fala em ghostwriting de alto nível. Foi escrito pelo jornalista J.R. Moehringer, vencedor do Prêmio Pulitzer. Moehringer foi fiel ao estilo de se comunicar de Agassi, em nenhum momento deixando sua própria prosa aparecer. Assim que deve ser.
O retrato de Brooke Shields
Agassi não esconde o desprezo pela profissão da ex-mulher. Ele deixa claro que nada daquilo o interessa e dá a entender que Brooke é frívola, desinteressante e ensimesmada, dedicada a uma profissão rasa como a de atriz e incapaz de enxergar a carreira nobre de Agassi.
A descrição da ex e da relação do casal é mais um exemplo que evidencia a boa decisão do ghostwriter de não assinar o livro.
Segundo Brooke, o próprio Agassi pediu que ela lesse o livro antes da publicação, dizendo que sua memória não era boa. Passou cinco horas com o ghostwriter corrigindo elementos que lembrava de forma diferente. Depois recebeu uma carta de Agassi dizendo: “Lamento, mas não pude mudar nada porque não foi assim que eu me lembrei.”
Brooke disse não ter se sentido atacada, que na verdade foi o próprio Agassi quem “se afundou” no livro. De fato, ao ler, empatizei com Brooke e abominei o autor.

Ainda assim, uma alfinetada de Brooke não a deixa esconder seu ressentimento: “Eu escrevo meus próprios livros, por sinal.” (Cabe um parênteses para dizer que Brooke foi infeliz nesse comentário. Ele pressupõe que ter um ghostwriter para escrever o próprio livro é menos nobre. Mas essa é discussão para um novo texto.)
Brooke Shields virou, involuntariamente, a melhor prova de que ghostwriting não apaga a responsabilidade autoral. Ela foi corrigir os fatos com o ghostwriter, mas Agassi barrou as correções. As escolhas são todas de Agassi, e é preciso ler a obra relativizando a verdade. Biografia é mais sobre memória do que sobre história.
O retrato e a reação dos outros tenistas
Quando o livro foi publicado, Pete Sampras disse que ficou “surpreso e decepcionado” com algumas descrições. Afirmou que achava que tinham superado a fase de ataques e gostaria de conversar com o colega “de homem para homem”.
Agassi retratou Sampras como um atleta sem inspiração, entendiante e robótico, e ainda contou um episódio em que Sampras teria dado uma gorjeta de um dólar para um manobrista, usando o episódio para concluir que “não poderiam ser mais diferentes”. Sampras não gostou do tom moralizante, dizendo que Agassi o usou para se colocar como um “homem melhor”.

O livro também troça de Michael Chang, aproveitando cada oportunidade para ironizar areligiosidade do tenista. Chang tomou o caminho mais nobre: nunca respondeu publicamente de forma significativa.
Rafa Nadal e Roger Federer declararam publicamente seu repúdio afirmando que Agassi cometeu um desserviço com afirmações derrogatórias de ódio ao esporte.
Curiosamente, uma das reações mais ponderadas veio de Boris Becker, que, mesmo sendo bastante atacado no livro, disse que Agassi não foi mais duro com os outros do que consigo mesmo. De fato, quem lê o livro fica com a ideia de que a grande luta de Agassi, toda a sua raiva, é dirigida, mais do que ao próprio tênis, a si mesmo.
O ódio ao esporte
A afirmação mais bombástica e reiterada dezenas de vezes é a de que Agassi odiou o tênis durante quase toda a sua carreira. Segundo ele, só continuou jogando porque era a única coisa que sabia fazer, afinal, nem concluiu a escola. A afirmação mexeu com uma verdade profunda para atletas, aspirantes e fãs: a ideia de que um campeão precisa amar o que faz.
Embora não ache que Agassi mentiu em sua declaração chocante, como leitora, fica a impressão de que ele usou a cartada “odeio tênis” toda vez que perdia — assim como “estou machucado” (sempre algo muito grave, uma dor de ver estrelas, paralisante), como se fosse o único jogador a encarar os compromissos tão nobremente jogando lesionado.
O que fica para uma leitora como eu, que aprecia biografias, mas não tênis
Se Agassi ficou feliz com o livro, é porque Moehringer, o ghostwriter, fez um trabalho duplamente genial. Primeiro, ele escreveu o que o tenista queria contar. Soube extrair o que precisava, bom ou ruim. Segundo, a escolha da prosa e da forma é consistente ao longo do livro, o que leva o leitor a visualizar, o tempo todo, as palavras saindo da boca de Agassi.
Genial a ideia de começar com um capítulo chamado Final, sobre o último jogo de Agassi em campeonato. Genial.
Minha única ressalva: tinha tênis demais, partidas demais, descrição demais. Cansativo. Mas é apenas a opinião de alguém que, como eu disse, não é fã do esporte. Mesmo assim, aprendi muito e fiquei até com vontade de acompanhar!
Leitura obrigatória para quem quer entender mais sobre estruturação de biografias e escolha de cenas/palavras, e para estudar como foi formulado o questionário do ghostwriter para conseguir extrair detalhes que dão vida ao livro para além do esporte.

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