Autoficção: quando a realidade busca abrigo no imaginário

Autoficção é um gênero literário cuja matéria-prima é a verdade, com libertadoras injeções de ficção. Está bastante em voga nos últimos tempos com adesão de grandes nomes da literatura mundial, como Philip Roth ou Karl Ove Knausgård, e é especialmente forte na França, com Emmanuel Carrère, Édouard Louis e Annie Ernaux (Nobel da literatura em 2022).
Na autoficção, o autor escreve sobre si mesmo com liberdade para distorcer a realidade. Muito ou pouco, depende de cada um. Pode ser tudo verdade ou tudo mentira, ou infinitas tonalidades entre um e outro. O leitor, se assim quiser o autor, jamais saberá.
Você quer contar aquela história constrangedora que aconteceu com você no metrô, mas adiciona um dragão que solta amanditas pela boca. Descreve seu ex-namorado com precisão cirúrgica, mas muda o gênero e o nome dele para Medusa. Relata fielmente sua crise existencial dos 40, mas dialogando com sua calopsita em perimenopausa, que responde em grego antigo. Ou simplesmente muda um nome aqui e outro ali, a cidade onde se passa a história ou o século… Enfim, não há regras nem prestação de contas, contanto que a coluna vertebral seja sua história real.
Enquanto na autobiografia o autor conta como os fatos aconteceram, na autoficção ele conta como os mesmos fatos foram sentidos.
O ghostwriter de autoficção
Confesso que este é um dos trabalhos que mais gosto de fazer, e também o mais desafiador. Ao mesmo tempo em que tenho que colher informações reais, preciso entender o autor de forma profunda o suficiente para criar uma ficção com a qual ele se identifique.
Não é um trabalho simples; ser fiel à voz autêntica do autor mesclando elementos de ficção é para escritores experientes. Só é capaz quem já escreveu autobiografias e livros de ficção para enxergar lacunas e entender o ritmo que a boa literatura requer.
Na prática:
O ghostwriter se torna um co-conspirador criativo. Através de conversas longas e profundas, ele capta eventos da vida do autor e, junto, seu modo de ver o mundo, seu humor interno, suas obsessões, seus medos secretos. É aquele amigo que ouve você reclamar da vida e diz, “sabe o que ia ficar incrível? Se a gente transformasse isso tudo num romance em que você é um detetive e seus traumas são crimes a serem resolvidos.”
O ghostwriter vai te ajudar a mentir de um jeito que revele quem você realmente é. Ele te escuta e, de volta, joga algumas conjecturas “E se…?”
“E se esse divórcio doloroso fosse narrado como uma guerra de espionagem mútua?”
“E se sua depressão virasse um monstro literal que te segue pela casa e muda de forma dependendo do momento do dia?”
“E se aquela reunião de família constrangedora acontecesse num cruzeiro e a tia Bete fosse na verdade um poodle?”

Um processo colaborativo
Diferente do ghstwriting tradicional, onde o ecritor some completamente, na autoficção o processo é colaborativo:
Diferente do ghostwriting tradicional, onde o escritor some completamente, na autoficção o processo é colaborativo:
Autor: “Meu pai era muito distante.”
Ghostwriter: “E se no livro seu pai fosse literalmente transparente? As pessoas o atravessam por todos os lugares sem perceberem? E se nem ele percebesse isso, já que para ele nem fazia diferença?”
O PRODUTO FINAL
Eu entrego um livro assinado por você, autor, que conta sua história numa versão ficcionalizada, com a verdade emocional intacta, mas a verdade factual… negociável.
É confuso, mas funciona muito bem e é divertidíssimo!