
Fiz um curso de ghostwriting para entender o lado business: contratos, orçamentos e processos. A instrutora era muito boa, porém, em um dos módulos disse algo como: não se envolva com a história do cliente, não demonstre emoção, mantenha distância.
Nesse ponto eu tive que discordar. Acho impossível não me envolver com a história de um cliente. A gente está falando de uma vida. Vida é feita tanto de fatos quanto de emoções. Como disse no meu texto anterior, a gente distorce, quando não inventa, as memórias. A vida recontada é a união de acontecimentos sobre os quais escolhemos, subjetivamente, jogar o holofote e, mesmo sem perceber, alterar a luz. É a nossa seleção, é o que percebemos, o que julgamos e o passo seguinte a que esse julgamento levou. Um julgamento cheio de viés. Somos todos assim.
A biografia ou o memoir que escrevo jamais será exatamente o que “de fato aconteceu” porque é impossível alguém me contar, 100%, o que “de fato aconteceu”. Uma autobiografia é cheia de interpretações, e é aí que está a beleza, aí que se torna única e interessante.
Um livro recente que li, As cinzas de Ângela (fantástico por sinal), é um memoir em que o autor conta sua infância muito pobre e triste na Irlanda, e conta isso da perspectiva de uma criança de cinco, seis anos. Para dar certo, o livro tinha que ser escrito por aquela criança, não pelo autor adulto. Só uma criança diria que a razão de toda a desgraça que viveram era que na Irlanda chovia muito. E só com grande envolvimento emocional um ghostwriter é capaz de obter esse efeito.
Escrever o livro de memórias de alguém é mergulhar em seu mundo. O escritor acompanha o autor nessa jornada. Cava mais fundo, acessa lugares que estavam varridos para debaixo do tapete. Não dá para fazer isso sem envolvimento. Só viajando junto é possível entregar um livro com todas as tonalidades e texturas que o tornam uma obra completa.
Outra colega ghostwriter disse: “chorar, então, nem pensar!” Não teve um único trabalho que fiz que não chorei. Claro que não abri o berreiro, mas não preciso fingir que não sou humana, que não me envolvo com o que meu cliente está relatando. Muitas vezes são histórias tristes. Se não houver empatia, se não houver abraço, não tem mergulho, apnéia, emersão e alívio. Se não houver envolvimento, não tem como ver beleza na vitória do autor, não em toda a sua complexidade.
Como disse Voltaire, “a escrita é a pintura da voz.”. Eu não poderia concordar mais. A letra preta sobre a folha branca é apenas um detalhe. Eu e meu cliente vamos, juntos, colorir as páginas.

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