O uso da Inteligência Artificial para produzir uma biografia pode ser fantástico. Utilizada corretamente, a IA pode auxiliar o escritor com a transcrição das entrevistas, estruturação da obra e, claro na pesquisa.
Onde a IA não pode e não deve ajudar: na escrita. Na verdade, pode auxiliar quem não escreve mil maravilhas, sugerir substituições, oferecer correções. Mas a própria escrita, não tem jeito. Um ChatGPT da vida vai te dar algo raso, impessoal e, pior, identificável. Está na cara quando um texto foi escrito por IA, mesmo que tirem-se os travessões e os bullet points.
Uma cliente queria escrever um livro infantil e jogou sua ideia em detalhes numa ferramenta de IA. O resultado foi catastrófico. Quanto mais ela pedia novas versões, mais tosco ficava. Ela desistiu e me contactou.
Isso já deveria ser razão suficiente para convencê-los que a IA não domina (ainda) essa arte. Mas utilizar IA para criar um texto, além de preguiçoso e desrespeitoso, é perigoso.

Já houve casos reais sobre plágio envolvendo textos gerados por IA. O “autor” utilizou a ferramenta e acabou publicando algo que já existia online. Os modelos de Inteligência Artificial em geral não copiam textos inteiros, mas podem reproduzir trechos muito parecidos.
Um caso muito discutido envolveu o uso de ChatGPT em universidades: professores detectaram parágrafos quase idênticos a textos de blogs ou artigos. Os alunos afirmaram que “apenas pediram para a IA escrever” — como se fosse um argumento, como se nesse caso não se tratasse de plágio.
O texto gerado por IA pode ser praticamente igual a um existente, qualificando assim o plágio, mesmo sem que o “autor” saiba de sua existência.
Também existem “autores” que publicaram e-books, contos e artigos gerados por Inteligência Artificial, e os leitores identificaram trechos extremamente semelhantes a textos existentes online. Isso gerou debates sobre a responsabilidade do plagiador, a responsabilidade da IA e os direitos autorais do verdadeiro autor.

Os casos da Amazon
Em 2023 houve uma explosão de e-books escritos com IA na plataforma da Amazon. Vários autores começaram a publicar livros inteiros escritos com IA, um atrás do outro. Alguns leitores perceberam que havia partes muito parecidas com textos na internet e que alguns livros continham informações copiadas quase literalmente de blogs e newsletters.
Resultado: a Amazon passou a limitar a quantidade de livros gerados por IA e a exigir que os “autores” declarem quando usam a ferramenta. (Eu achei é pouco.)
Mesmo quando o texto é gerado por inteligência artificial, quem publica continua sendo responsável legalmente. Se o conteúdo reproduz algo protegido, é o “autor” que será acusado de plágio. O “autor” que agiu de má fé.
O caso Natalia Beauty
No meio jornalístico foi um choque quando a empresária e colunista da Folha Natalia Beauty confessou usar IA para escrever seus artigos. Ela deixou claro que a ferramenta a ajuda a organizar ideias, mas o assunto já está inflamado demais e a autora sofreu uma chuva de críticas.

Mais afetados e menos comentados são os ghostwriters. Em artigo sobre o caso para o Observatório da Imprensa, o professor e jornalista João Pedro Malar comentou que “a substituição de um ghostwriter por uma ferramenta de IA, por mais que seja um triste sinal dos tempos, não é exatamente uma surpresa. A novidade, talvez, seja o fato de que as ‘marcas de estilo’ das ferramentas de IA deixam mais óbvia a autoria terceirizada dos textos, o que acaba criando possíveis constrangimentos para o suposto autor.”
E põe constrangimento nisso. Recentemente um escritor fantasma me enviou o link de seu site e, para meu horror, era evidente que o conteúdo todo tinha sido escrito por IA. Não o conheço bem e preferi não responder, mas fiquei perplexa que um colega de uma profissão ameaçada pela IA é capaz de montar seu próprio cartão de visitas (seu site) utilizando a ferramenta para escrever suas competências. É um desserviço. E também uma ideia para um conto de humor: o escritor que nunca escreveu. Ou o fantasma que contratou um fantasma.
Ghostwriters usando IA na midia
No mercado editorial e de autopublicação há relatos frequentes de clientes descobrindo textos com estrutura típica de IA e ghostwriters entregando manuscritos gerados por IA.
Esses casos geralmente não viram notícia porque os contratos de ghostwriting têm cláusulas de confidencialidade e muitos autores não querem que venha a público o fato de que contrataram um escritor. Por conta disso, as disputas são resolvidas a portas fechadas.
Isso virou um problema recorrente para quem trabalha produzindo conteúdo. Os clientes suspeitam, muitas vezes com razão, que pagaram milhares de reais por algo gerado em minutos por IA.
Como identificar os charlatões? Faça sua pesquisa. Tente chegar nos profissionais via indicação. Fique de olho nos preços e nos prazos: se parecem bons demais para ser verdade, provavelmente são.

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